Apontamentos estratégicos sobre a luta contra Genocídio do Povo Negro


Você cria um ódio, você cria uma carga emocional e vai juntando marcas no corpo por conta das agressões dos policiais nas abordagens violentas, cicatrizes de tiros e o medo, o pânico, o assombro, o alcoolismo, o abuso de drogas, doenças próprias de quem vive em guerra.

Dr. Hamilton Borges Walê

No último dia 30 de novembro, o governador das chacinas, Rui Costa (PT), anunciou um projeto de lei para aumentar o Pagamento de Premio de Desempenho Policial (PDP), segundo o governador: “isso significa, de forma clara e objetiva, prioridade na Segurança Pública, compreendendo que o papel dos polícias civis e militares é fundamental para a redução da violência no nosso estado”. (http://glo.bo/1Svrjf6)
Na prática, um eufemismo para gratificação faroeste. Ou seja, prêmio em dinheiro para o batalhão que mais mata pretos durante o semestre. Serão cerca de R$ 42 milhões investidos através do Pacto Pela Vida em mais um novo dispositivo de massacre racial, que tem como objetivo incentivar financeiramente, moralmente e institucionalmente, os batalhões. Sobretudo, as Companhias Independentes a empreender um padrão operacional policial centrado em chacinas e massacres de negros/as.
Há mais de 10 anos a Campanha Reaja ou Será Morta/o vem organizando um movimento intracomunitário negro, centrado em uma ação estratégica de enfrentamento ao Genocídio do Povo Negro, especificamente em suas formas mais diretas: o assassinato em massa de jovens negros e o encarceramento em massa do nosso povo. Nossa organização tem batido de frente com a política de segurança pública da Bahia, evidenciando sua estrutura supremacista branca, seus dispositivos operacionais de massacre racial e a institucionalização das chacinas como modus operandi formal na ação policial.
Há uma guerra racial de alta intensidade em curso que tem trazido terror às comunidades negras na Bahia. Cabe a nós, a linha de defesa do nosso povo, construirmos estratégias de sobrevivência, recrudescermos nossas tecnologias de autodefesa comunitária e desvendarmos as manobras militares do inimigo.
A guerra racial em curso contra os negros na Bahia, nada mais é que uma das dimensões do conjunto de dispositivos estatais e paraestatais que constituem o processo de Genocídio que o Povo Negro está submetido no Brasil. Nesses termos a análise que segue é, sobretudo, ou tão somente, a tentativa de codificar três aspectos centrais na política de segurança pública genocida protagonizada pela Secretaria de Segurança Pública da Bahia (SSP-BA) nos últimos 12 anos: a política de subnotificação dos dados de homicídios de negros/as na Bahia como tática para invisibilizar o Genocídio em curso, incorporação das Chacinas com modus operandi público-institucional da corporação policial, a perseguição política e conluios planejados pela SSP-BA para assassinar militantes de nossa organização.
No dia 15 de outubro, foi divulgado pela Secretaria Nacional de Segurança Pública dados do relatório Diagnósticos no Brasil: Subsídios para o Pacto Nacional pela Redução de HomicídiosSegundo o relatório, a região com a maior taxa de homicídios dolosos do país é o Nordeste (33,76), acompanhada da região Norte (31,09) e do Centro-Oeste (26,26). As regiões Sudeste e Sul apresentam taxas menores, 16,91 e 14,36 respectivamente.  Ainda, segundo o mesmo documento, a Bahia tem o maior numero de homicídios do país e apenas em 2014 cerca de 5.450 baianos foram assassinados.
Esses dados podem ser novidade para mídia de rapina, entretanto, já no ano de 2014 a própria SSP-BA, tornou público, mesmo que de maneira pouco divulgada, os dados de morte na guerra racial na Bahia. Segundo a SSP-BA (2014), apenas em Salvador 1.320 pessoas foram assassinadas no ano de 2014 e 450 pessoas assassinadas ao somarmos os números de óbitos por assassinato em regiões metropolitanas como Lauro de Freitas e Simões Filho. Mais adentro no sertão a governabilidade da morte negra se recrudesce, como no caso de cidades como Feira de Santana (430 assassinatos), Itaberaba (35) e Vitória da Conquista (161).
Sabemos que o montante de corpos negros abatidos na Bahia é ainda mais catastrófico, por não dimensionar os óbitos ocasionados pelos grupos de extermínio, esquadrões da morte e milícias que espalham terror nas comunidades negras, na capital e no interior da Bahia. Ou dos homicídios praticados por policiais em serviço, sobretudo, aqueles ligados aos pelotões de elite da policia militar e civil.
A Chacina tornou-se publicamente o padrão operacional nas ações das Companhias Independentes de Policiamento Tático.
As Companhias Independentes de Policiamento Tático tem ocupado um papel central na política de segurança pública Genocida do ex-governador Jacques Wagner (PT) e do atual governador Rui Costa (PT). Não é por acaso que o Programa Pacto Pela Vida elegeu as Companhias Independentes; Caatinga, Litoral Norte, Cerrado, Peto, Rotamo, Rondesp, dentre outras, para investir frondosos recursos financeiros, logísticos, tecnológicos e em seu arsenal bélico. A Rondesp, por exemplo, surge a partir de uma operação do antigo Comando de Policiamento da Capital em 2002, que na época possuía uma única viatura operacional. Hoje possuí sede própria na capital baiana, carga de armamento bélico, helicóptero, viaturas padronizadas, efetivo próprio e há poucos meses instalou uma nova base operacional em Feira de Santana.
O fortalecimento logístico-institucional das Companhias Independentes tem tornado as Chacinas e Massacres uma prática pública, amplamente divulgada e institucionalizada na ação policial na Bahia. Temos o entendimento organizacional que esse padrão operacional policial alicerçado na morte prematura de famílias negras tem como papel central uma guerra racial de alta intensidade contra os negros na Bahia. A governabilidade centrada na morte prematura e violenta da comunidade negra na Bahia tem estabelecido tecnologias institucionais de legitimação das chacinas e massacres cometidos por policiais em serviço. Esses dispositivos de convencimento da “opinião pública” tem a noção de guerra às drogas um aspecto central. Há também dispositivos jurídicos, como no caso da absorção política dos policiais envolvidos na Chacina do Cabula.
Segundo cruzados os dados entre o Anuário Brasileiro de Segurança Pública e os boletins divulgados pela SSP-BA, apenas na gestão de Mauricio Teles Barbosa, pelo menos, 17 chacinas foram contabilizadas.   Recentemente, no último dia 17 de outubro, 9 jovens negros foram executados por policiais militares em serviço na cidade de Sento Sé, no interior da Bahia. Assim como na internacionalmente conhecida Chacina do Cabula, a justificativa da execução foi uma suposta tentativa de assalto a banco.
Nossa organização tem analisado e sentido na pele como a SSP-BA tem, nos últimos anos, investido estrategicamente em dispositivos de etiquetamento racial, que internalizam na tropa o perfil do inimigo a ser abatido. Recentemente a SSP-BA divulgou na imprensa a versão preliminar de uma Cartilha de Orientação Policial neo-lombrosiana, adotada pela Polícia Militar baiana, desenvolvida a partir de estudo realizado acerca de 10 anos por um certo capitão do Departamento de Polícia Comunitária e Direitos Humanos, sendo este um espécime corporativo policial, treinado e municiado intelectualmente pelos Programas de Promoção da Igualdade Racial, que há tempos ganham frondosos recursos, realizando assessorias técnicas e treinamento ideológico ao baixo oficialato da polícia baiana. Nesses termos, o recente escândalo racial da “Dancinha da Igualdade” foi apenas o anúncio público de uma aliança subterrânea construída nos últimos 10 anos entre as instituições de rendição racial e as corporações de massacre racial.
Em 10 anos de organização comunitária em favelas, malocas, vilas e penitenciárias, a Campanha Reaja ou Será Morta/o já foi peça de investigação criminal, além de possuir um largo histórico de militantes torturados e até mesmo assassinados pelas forças de repressão policial. Nosso serviço de informações comunitárias já desvendou e denunciou em inúmeros fóruns, o quão o gabinete do governador está envolvido com a operação policial subterrânea, de busca e captura de militantes de nossa organização, operação essa tolerada e apoiada pelo alto comando da Polícia Militar e pelo Secretário de Segurança Pública Mauricio Teles Barbosa. Não é a toa que fotos de nossa bandeira, de militantes e apoiadores de nossa organização estão circulando em grupos de whats app da polícia baiana.
Nos últimos cinco anos, há uma curva ascendente de violência policial contra nós. À medida que avançamos na luta comunitária, a repressão racial tenta nos intimidar, brutalizar, etiquetar.  Cabe um breve histórico da espiral de violência racial que estamos sujeitados nos últimos dois anos: no ano de 2013, após a primeira Marcha, uma guarnição não identificada da Polícia Militar tentou invadir a casa de um dos membros fundadores da Campanha Reaja, em 2014 durante todo o ano nossos militantes foram achacados pela Polícia Militar da Bahia com armas apontadas para cabeça de nossos articuladores quando identificados como militantes em abordagens policiais, detenções arbitrárias com acusações de “usar tatuagem de ladrão”, um ônibus que voltava da II Marcha foi interceptado por uma guarnição não identificada da polícia militar, além de serem humilhados na abordagem policial, os jovens tiveram o material de propaganda política da Reaja ilegalmente apreendidos (faixas e camisas) com a acusação de que era material de “defensores de ladrão”. Já no início de 2015, antes mesmo da Chacina do Cabula, um de nossos articuladores na cidade de Cachoeira (BA) foi capturado e espancado covardemente por policiais militares, por estar usando a camisa da Campanha Reaja. Ainda em 2015, com nossa entrada na luta por justiça e verdade sobre a Chacina do Cabula, fomos publicamente ameaçados por policiais em uma audiência pública na sede da OAB, além de termos nossa logomarca política editada por policiais da Rondesp, que a circularam em grupos de redes sociais com os dizeres: “Reaja e Morra” com o tácito objetivo de disseminar o ódio institucional contra nossa organização. No dia 2 de agosto uma guarnição policial invade uma atividade comunitária de lançamento da III Marcha Internacional Contra o Genocídio do Povo Negro, um vídeo registra a ação e, depois de veiculado nas redes sociais, militantes da Campanha Reaja passaram a ser ameaçados de morte pela policia local. Após a III Marcha, casas de militantes de nossa organização são invadidas, páginas de internet hackeadas e uma investigação criminal ilegal são deflagradas com o intuito de criminalizar militantes de nossa organização.

À medida que sofisticamos e avançamos na luta comunitária Transnacional Contra o Racismo, o neocolonialismo e Genocídio, o supremacismo branco recrudesce os dispositivos de repressão e eliminação racial. Sabemos que a violência operacional planejada pelas forças policiais contra organizações negras radicais e comunitárias não é uma exceção na história da luta política de libertação do Povo Negro na diáspora. Seja nos EUA, na Jamaica, Haiti ou em África, organizações negras são submetidas a forte repressão física e psicológica por parte do Estado Penal Supremacista Branco, que tem em suas forças policiais, civis e militares, agentes políticos que utilizam a criminalização, prisão, violência e sequestro, como tecnologia política de terrorismo racial e desmobilização comunitária.
Ao retomamos historicamente a memoria estratégica do contexto histórico de desmonte do Partido dos Panteras Negras para Autodefesa, na década 70, nos EUA, podemos  compreender como em variadas conjunturas políticas raciais o Estado supremacista branco ocidental tem construído programas de contra inteligência, que utilizam a guerra química, psicológica e físico-militar para captura e eliminação de militantes radicais negros. A espiral de violência que os Panteras Negras foram envolvidos é reproduzida como uma tecnologia repressiva RACIAL aplicada a organizações radicais negras em todo o mundo.
Como já constatamos a duras penas em nossa luta política comunitária, na Bahia, a Secretaria de Segurança Pública, através de seu braço Politico-ideológico, o Programa Pacto Pela Vida, vem fortalecendo as Companhias Independentes de Policiamento Tático. Ou seja, institucionalizando as Chacinas e massacre enquanto padrão operacional legitima na ação policial. O genocídio do Povo Negro como espinha dorsal na governabilidade de esquerda ou direta. Isto é, a corporação policial baiana, sobretudo os batalhões operacionais de elite, estão sendo utilizados como instrumento bélico de terrorismo racial à serviço do governo supremacista branco de Rui Costa (PT).
Nesses termos, faz parte do conjunto de nossas tarefas organizativas, revelar o quão alto índice de violência letal aplicada pela corporação policial baiana, especialmente, as Companhias Independentes, tem sido engrenagem mestra na manutenção e legitimação dos governos supremacistas brancos "democráticos populares" nos últimos 12 anos. Cabe a nós, que assumimos a tarefa de enfrentar o terrorismo racial nas ruas, de decodificar as manobras militares de curto, médio e longo alcance do nosso inimigo. Há uma guerra racial em curso e por mais que não sejamos os melhores, apenas nós, us kamisa preta, assumimos a tarefa de enfrentar o inimigo no submundo das ruas sangrentas que matam negros/as todos os dias.
Por Aganju Shakur, da Campanha Reaja ou Será Morto, Reaja ou Será Morta. Diretamente do bueiro, dezembro de 2015.



0 comentários

Madrugada de segunda-feira, 26 de outubro, quinquagésimo segundo dia de resistência. Por volta das 4:20 da manhã, cerca de 60 capangas contratados e guarda municipais armados arrebentam o cadeado do portão dos fundos do canteiro de obras do BRT e invadem a ocupação na avenida Maria Quitéria, aterrorizando as e os militantes que dormiam no local, nos arrastando de dentro das barracas, quebrando nossos pertences e nos imobilizando. Na sequência, após revistas violentas, montam cercos de guardas armados nas duas entradas do canteiro de obras. Tudo sem nenhum mandado de reintegração de posse ou qualquer tipo de ordem judicial. O prefeito, José Ronaldo de Carvalho, do alto de sua arrogância e prepotência, resolveu governar Feira de Santana através da barbárie.


A reprodução de um acionar político típico da Ditadura militar-empresarial que torturou, perseguiu e assassinou milhares de pessoas no Brasil não é um acaso, José Ronaldo é um político formado no ARENA, partido oficial da Ditadura, que se utiliza do mesmo modus operandi, a perseguição política, a truculência, o poder paternalista, as “grandes obras”, a modernização conservadora, o falso discurso de progresso.


Nesse processo, de governar a partir da barbárie e do fascismo, José Ronaldo tem usado a guarda municipal como uma milícia armada vinculada aos seus interesses e ao seu projeto de poder, que juntamente com capangas contratados através de empresas terceirizadas, tem imposto o seu “choque de ordem”, foi assim com a invasão e desocupação ilegal das obras do BRT e seus “túneis”, na repressão covarde aos trabalhadores e trabalhadoras ambulantes e é o que se desenha para a imposição do shopping no Centro de Abastecimento.


Enquanto segue dando sequência aos seus projetos que fazem de Feira de Santana uma cidade cada vez mais excludente e segregada sócio-racialmente, governando para a elite racista, seu grupo político, o setor do capital e as diversas máfias que sustentam seu governo, José Ronaldo esconde os vários processos em que está envolvido, fraudes e crimes de sua gestão, como o recente escândalo da SMT, faz da Câmara de Vereadores um tipo de “casinha de cachorros” e conta ainda com a conivência e omissão das várias instâncias da justiça burguesa e dos governos federal e estadual.


Romper o cerco da ditadura de José Ronaldo é uma tarefa urgente e fundamental, que passa por fora das urnas, da farsa eleitoral e dos interesses de uma oposição igualmente oportunista, deve partir do fortalecimento das organizações populares, do empoderamento através dos instrumentos de auto-organização nas periferias, favelas, locais de trabalho e estudo e do controle territorial, é necessário criar um povo forte e protagonista, que seja capaz de enfrentar e vencer o poder.


A luta combativa contra o BRT, os cinquenta e dois dias de resistência popular e autônoma, o protagonismo da juventude pobre e periférica, a ação direta como método fundamental, a dinâmica permanente de formação e cultura, a afirmação intransigente de independência frente aos partidos políticos e oportunistas de toda espécie, o rechaço contra todas as tentativas de tutelar nossa ocupação, é o exemplo que confirma a certeza de nosso caminho e vocação. Somos a Feira de Santana rebelde e libertária. A resistência payayá ao colonizador branco, a rebelião de Lucas contra a escravidão, a ousadia de Maria Quitéria na guerra de independência, a rebeldia de George Américo nas ocupações de terra, a coragem de Luís Antônio Santana Bárbara contra a Ditadura.

Abaixo a ditadura de José Ronaldo!


Construir uma alternativa popular e libertária!


Lutar e vencer!

0 comentários
Das comunidades nascem os frutos da resistência, Cine Comunitário do Povo combate as barreiras do Estado e sua polícia genocida, através do cinema, da valorização da cultura própria, música e com uma juventude articulada na Bahia.


Ocupar espaços públicos é preciso, o Estado tenta impor barreiras ao potencial criativo e cultural do povo, invade comunidades com sua polícia para impedir a autonomia coletiva da quebrada, felizmente a periferia resiste e promovendo a cultura popular mantém a luta contra o genocídio do povo, tão criminalizado e oprimido pelo sistema. No estado da Bahia, no município de Cachoeira, que está distante cerca de 120 km da capital Salvador, a resistência cultural e coletiva da periferia persiste na resistência à guerra promovida pelo Estado nas ruas e vielas da região e praticada pelo braço opressor do Governo, a Polícia Militar. Um dos frutos desta resistência na periferia é o Cine Comunitário do Povo, um cineclube que converteu a sétima arte em resistência popular, usando a cultura como ferramenta de mobilização e articulação da comunidade contra a repressão.

O Cine do Povo foi criado em 2011, inicialmente com o nome de Cine do Povo do Viradouro, nasceu como uma ação permanente do Núcleo de Negras e Negros Estudantes (Núcleo Akofena) da UFRB (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia), no município de Cachoeira. O bairro de Viradouro é conhecido por ser uma das regiões mais discriminadas e criminalizadas da cidade.

“Além de exibir filmes o objetivo era construir um processo de trabalho de base que instrumentalizasse a comunidade no enfrentamento à brutalidade policial, que era e ainda é endêmica nas periferias da cidade de Cachoeira”, nos conta Fred Aganju, um dos articuladores do Cine. Conforme conta, a região onde atua o Cine do Povo é uma cidade colonial encharcada de sangue negro e indígena, palco de centenas de revoltas populares. Cachoeira é um município conhecido internacionalmente pelo seu valor arquitetônico, por seus terreiros de candomblé, irmandades negras, rodas de samba e uma viva atividade cultural noturna, além de ser sede de um dos campus da UFRB.

“O que poucos sabem, ou fingem não saber, é da guerra não declarada que acontece nas ruas e vielas da cidade, deflagrada pela Polícia Militar contra os moradores da periferia, sobretudo, jovens negros de idade entre 15 e 29 anos. Como na conjuntura nacional, a justificativa é o combate ao tráfico de drogas. Para se ter uma ideia, apenas nesses primeiros cinco meses do ano de 2015, sete jovens foram assassinados em operações policiais nas periferias de Cachoeira, notadamente pela Polícia Militar, através de seu Pelotão de Emprego Tático Operacional (PETO). Esses números assombrosos de pelo menos 2 jovens negros mortos pela polícia a cada mês, são fragmentos de uma realidade nacional, ou seja, o processo de Genocídio contra o Povo Negro no Brasil”, explica Aganju.

Diante de um ambiente hostil como este, a história de resistência do Cine do Povo foi conquistando seu espaço, durante um ano após ser criado o Cine do Povo atuou de forma permanente, intercalando as exibições de cinema com atividades culturais de formação, voltadas para a Cultura Hip Hop. De acordo com Aganju, este período foi muito importante pois através deste acúmulo de ações e movimentos foi possível criar uma identidade ideológica para o Cine do Povo, o trabalho comunitário como ferramenta de ação e resistência, onde a cumplicidade entre o bairro do Viradouro e o Núcleo Akofena foi essencial para o fortalecimento da coletividade.

Em 2013, por uma série de motivos, o Cine do Povo ficou praticamente inoperante, chegando a encerrar sua atuação no bairro do Viradouro, porém, após um ano de recesso, um grupo de moradores do bairro, mães, pais, artistas locais e jovens que participavam das ações do cineclube, articularam uma reunião para discutir a retomada das atividades do Cine Comunitário do Povo. Desta reunião foram debatidas algumas questões, como o aumento da brutalidade policial e a criminalização do povo através da mídia burguesa local, que na época em que as atividades do cineclube eram frequentes haviam diminuído. “Dessa forma, o Cine deveria voltar, sobretudo como um instrumento de autodefesa comunitária e descriminalização dos espaços públicos da comunidade”, conta Aganju.

O cineclube foi refundado e as atividades impulsionadas pelos jovens do bairro, abrangendo aspectos técnicos do cineclubismo e de comunicação comunitária. É neste momento que o nome Cine Comunitário do Povo é criado. O intuito da inclusão do termo “comunitário” veio com a intenção de multiplicar e descentralizar as atividades do cineclube para outras comunidades de Cachoeira. Durante um ano o cineclube atuou sem qualquer tipo de divulgação ou mobilização em redes sociais ou qualquer veículo de comunicação, um jovem foi eleito para coordenar e impulsionar esse processo de reorganização do cineclube, além de ser estabelecido uma espécie de conselho comunitário consultivo, composto por moradores do bairro que eram mais atuantes no Cine do Povo.

Após meses atuando apenas nas ruas de forma ativa e sem interferência externa ou mobilizações na rede, foi realizada a primeira atividade pública, chamada de Arte na Comunidade: Consciência Negra contra a Brutalidade Policial.

“Com esse novo formato, nos constituímos basicamente como uma organização comunitária que atua nas periferias de Cachoeira com a realização de ações permanentes centradas em uma política cultural comunitária, abrangendo instrumentos como o cinema, educação popular, movimento Hip Hop, entre outros elementos da cultura da juventude negra periférica”, explica Aganju.

Depois da mobilização ser iniciada, outras ações comunitárias começaram a ser postas em prática. Começam então as exibições audiovisuais itinerantes, em regime quinzenal, nas praças dos bairros periféricos de Viradouro, Vila 25 de junho, Três Riachos, Três Bocas, entre outras regiões de Cachoeira, onde filmes com a temática relacionada à cultura negra e comunitária, promovem a auto identificação dos moradores nas telas do cinema, incentivando o trabalho de articulação, mobilização, sensibilização e politização dos sujeitos envolvidos. Além do cineclubismo, há atividades culturais e políticas, com programações voltadas para o público de todas as idades, explorando diversas linguagens artísticas: música, poesia, fotografia, artes cênicas, dança, etc. Em fevereiro deste ano ocorreu a primeira edição do Encontro de Cineclubes Comunitários da Bahia, com a proposta de desenvolver mostras de cinema no município através do Cine do Povo, promovendo o intercâmbio e articulação entre os cineclubes de origem periférica e subalternizada da Bahia. O encontro também contou com oficinas de formação na instrumentalização do movimento cineclubista comunitário baiano.

A educação como ponto de partida no desenvolvimento cultural, politico e social não foi deixada de lado pelo cineclube. Cursos integrados de arte, cultura, educação e esporte, utilizando o cinema, a literatura e elementos da cultura Hip Hop como instrumentos pedagógicos de educação popular na formação de jovens lideranças comunitárias, são parte da ação mais recente do cineclube, conhecida como Cine do Povo na Escola. “As ações são realizadas em parceria e nas dependências da Escola Estadual Edvaldo Brandão, em Cachoeira, tendo como público-alvo, jovens entre 14 e 23 anos, sempre no período da tarde e abertas à comunidade. Além das atividades permanentes de exibições de filmes, aula de basquete, capoeira e criação literária, o curso oferece esporadicamente oficinas de grafite, fotografia, rima, palestras e rodas de conversa com convidadxs”, explica Aganju.

O município de Cachoeira conta com um campus da UFRB, nele há o curso de cinema, nacionalmente reconhecido e que atrai diversos interessados na área para estudar na região. Apesar da alta adesão ao curso universitário, o município de Cachoeira carece da influência mais ativa do cinema nacional, talvez pelo teor comercial que a indústria cinematográfica brasileira tem dado aos seus filmes mais populares.

“De maneira geral, o curso se fecha em si mesmo e pouco ou nenhuma relação tem com as comunidades periféricas da cidade, contribuindo, em certa medida, para uma elitização racialmente seletiva da cultura cinematográfica, ou mesmo, apenas utilizando a cidade como um laboratório cinematográfico onde a população, majoritariamente negra, é tomada como ratos de laboratório.”, desabafa Aganju. Segundo o articulista do Cine do Povo, a construção de uma alternativa comunitária ao movimento acadêmico do recôncavo, para o acesso e produção da sétima arte, é importantíssima. “Acesso no sentido da popularização de filmes que habitualmente a população não vai ver na Sessão da Tarde ou na Tela Quente: filmes nacionais, internacionais, documentários, curta e média metragens com abordagens sobre raça, classe, organização comunitária, etc. Isto, através das curadorias comunitárias nos bairros e das sessões de cinema”, explica.

Nas sessões do Cine do Povo são exibidos filmes nacionais de ficção, documentários nacionais, filmes internacionais e recentemente foi iniciada a própria produção audiovisual do cineclube, o que promete muita coisa boa por vir. A linha cinematográfica dos filmes exibidos tem como temas principais a brutalidade e violência praticada pela polícia, comédias, temáticas sobre organizações comunitárias, filmes Gangstar, cultura Hip Hop, resistência negra e curtas que seguem esta linha de contextualização. Outro destaque se dá aos filmes infantis que valorizam aspectos da cultura negra, como o clássico Kiriku.

Ao ser perguntado sobre a cultura brasileira mostrada nos filmes nacionais, Aganju foi certeiro.“O cinema nacional reproduz os valores da sociedade como um todo: racista, machista, homofóbico e fincado na lógica desigual do capitalismo. Nós lidamos com essa contradição, mas não batemos muito a cabeça com isso. Nosso objetivo não é ser crítico cinematográfico”, conta Aganju.

A autonomia cultural como base da resistência contra o fascismo do Estado e da mobilização pela luta dos direitos das minorias, o fato de um cineclube expandir sua ação para outros setores artísticos e culturais, que querendo ou não sempre estarão relacionados ao cinema, mas que a indústria cinematográfica só usa como cenário para vender mais e mais, é a prova de que estamos diante de uma raiz importante da luta popular. Esta raiz se multiplica de forma comunitária, mas nunca deixa de perder sua essência autônoma, dando espaço para outros criarem novas raízes, que juntas formarão um ciclo de resistência ao genocídio do jovem negro nos becos escuros deste país. Nas palavras de Aganju podemos verificar que o eixo tradicional das lutas em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Sul do país, principalmente enquanto vemos um golpe ser dado contra a juventude no Congresso Nacional depois que a Lei de redução da maioridade foi aprovada, tem aliados fortes no nordeste e eles não esperaram por sindicatos ou movimentos pelegos para criar sua fonte de resistência à violência praticada pelo Estado, o exemplo é importante.

Outro exemplo a ser destacado na luta do Cine Comunitário do Povo é a juventude presente e atuante em sua formação e ação coletiva. São detalhes que em um futuro próximo renderão frutos revolucionários contra o sistema retrógrado e conservador que somos obrigados a nos submeter, a diferença é que em Cachoeira não há submissão, mas atividade constante, contínua e verdadeiramente atuante no cotidiano da periferia baiana.

“Atualmente o Cine Comunitário do Povo atua em cerca de 5 bairros periféricos da cidade. Nós nos organizamos a partir de uma metodologia de ação espontânea, através de uma ampla rede de articuladores comunitários, coordenação local nos bairros, simpatizantes e educadores comunitários. Efetuamos, com certa permanência, sessões de cinemas nas ruas e articulamos atividades culturais em localidades que só conhecem a intervenção policial violenta como política pública”, conta Aganju.

Vídeo: I Encontro de Cine Clubes Comunitários da Bahia
Como na Jamaica, onde a independência do colonizador britânico foi regada à muita música, o reggae é a trilha sonora da resistência em Cachoeira, além do movimento Hip Hop, nascido nos bairros mais pobres dos Estados Unidos e expandido como ferramenta ativa contra a opressão em outros países. Muitos dos articuladores do Cine do Povo são Mcs, grafiteiros, b-boys e regueiros. Fred Aganju também destaca o movimento Hip Hop de Cruz das Almas, outro município baiano, além da banda de reggae Jamaicachoeira e o reggaeman J. Araujo, morador e co-fundador do Cine Comunitário do Povo.A venda de camisetas do Cine do Povo tem sido uma forma de construir uma política financeira comunitária para o cineclube. Além disso a ideia é começar a vender DVDs dos filmes que são exibidos, até mesmo um Box que vai contar com dois filmes populares nas temáticas aqui já citadas e um filme sobre a história do Cine do Povo, será criado.

“A ideia é piratear mesmo e vender em uma perspectiva de fortalecer nossa política financeira comunitária. No início do ano de 2015 ganhamos um prêmio, com essa grana fizemos o I Encontro de Cineclubes Comunitários da Bahia, que já íamos fazer e também aparelhamos o cine com projetor, notebook, câmera audiovisual, tela e caixa de som. Antes nós pedíamos tudo emprestado.”, diz Aganju.


Blindados pela mídia local e sempre com a repressão policial como ameaça à comunidade, o Cine do Povo segue resistindo e dando exemplos de luta contra o genocídio do jovem pobre e negro das periferias baianas. De acordo com Aganju, o movimento cineclubista comunitário é boicotado pela mídia e pelo Estado, as ações se tornam invisíveis para o restante do público, contando apenas com sua comunicação comunitária, nas ruas, no boca a boca, na esquina, no bar ou na página do Facebook, o Cine do Povo se mantém alerta aos fascistas, multiplica cultura popular e desenvolve caminhos para a juventude combativa, tão ameaçada pelo sistema político brasileiro.

Publicado originalmente pela Revista Megafonia
0 comentários

Nas masmorras, entre grades e as escabioses,
tuberculoses e abandono, prisioneiros somam
 em suas marcas o estigma de explodir essa cidade,
 e morrem encarcerados sem nenhum protesto. 
 Hamilton Borges Walê,
em “Fragmentos de uma 
Teoria Geral do Fracasso”[1].

Feira de Santana é uma cidade quente e encharcada de sangue negro, uma cidadela do racismo apelidada como Princesinha por uma aristocracia falida branco-sertanejo. Nessa terra hostil, os negros são caçados, capturados e abatidos como cães. O delito é o mesmo de 127 anos atrás: a cor da pele, o tamanho do nariz, os deuses que honrosamente e humildemente carregamos em nosso Orí. Toda essa violência racial acumulada do mundo escravagista transfigurou-se nesse grande purgatório neocolonial, em que segregação racial urbana, altas taxas de homicídio contra jovens negros, brutalidade policial endêmica e um dos maiores índices de mortes por “negligência” hospitalar do Brasil tornam Feira de Santana peça chave no processo de interiorização do Genocídio Negro.
É nesse cenário de rebelião racial e massacre que está instalado o Conjunto Penal Regional de Feira de Santana, que no último domingo (24/05/2015) entrou para história recente dos massacres no Brasil, depois de ser a arena de uma rebelião que terminou com dez detentos mortos[2] e cinco feridos gravemente[3]. Uma matança sem precedentes nos últimos 20 anos do sistema penitenciário baiano.
 Como todo presídio no Brasil e no mundo, o conjunto penal de Feira de Santana é uma bomba relógio com explosão programada pelo Estado. Com capacidade para abrigar 600 internos, tem quase 2 mil. Só no pavilhão X, 638  internos ocupam 38 celas, em condições sub-humanas de alojamento, higiene e alimentação. Atrele todos esses ingredientes à índole sádica do governador Rui Costa e da cúpula da secretaria de segurança pública da Bahia, que mantém no mesmo bloco dois grupos de presos historicamente rivais, armando-os com revólveres, pistolas e facões: temos um massacre fratricida orquestrado com precisão cirúrgica lynchiniana.
A desgraça coletiva do conjunto penal regional de Feira de Santana não é uma situação excepcional, mas sim um fragmento de uma realidade nacional. Segundo dados sub-notificados do Sistema de Informação Penitenciaria (2011), o Brasil tem a terceira maior população carcerária do mundo, com cerca de 600 mil detentos\as. A cada 100 mil brasileiros 288 estão encarcerados, sendo que 70% desses detentos foram detidos por crimes contra o patrimônio e porte de entorpecentes. A massa carcerária tem cor, endereço e escolaridade. Mais de 70% da população intramuros é constituída de negros/as. Em sua maioria quase absoluta não possuem nem mesmo o ensino médio. Um dado particularmente alarmante é que mais de 70% são presos de caráter provisório, ou seja, não foram nem mesmo julgados pelo sistema judiciário.
Em 10 anos de luta organizada Contra o Genocídio Negro estivemos atuantes em penitenciárias da Bahia que nunca receberam a presença ilustre de um Secretário de Segurança Pública ou Governador. Nós conhecemos as entranhas e submundo pulsante do sistema prisional baiano. Já passamos por rebeliões, motins, greves de fome, protestos silenciosos, sabotagens. Paralisamos ruas e avenidas em frente de penitenciárias exigindo o fim dos dispositivos de controle racial, leia-se: Revista Vexatória e o Regime Disciplinar Diferenciado (RDD)[4].  Entretanto, foi nesse território de constante repressão e violência racial que construímos uma de nossas mais poderosas células organizativas: a Associação de Familiares de Amigos/as de Presos/as da Bahia (ASFAP), um núcleo de base coordenado e liderado hegemonicamente por mulheres negras que há anos tem defendido o postulado político do abolicionismo penal, não em seminários pomposos com “ativistas” afro-intelectuais de meia pataca, mas sim, no interior do sistema penitenciário baiano, forjando e formulando nossa Plataforma Insurrecional Intramuros. Se todo detento negro é um preso político, o seu direito de livre organização tem que ser defendido.
Nesse contexto não é de nenhum alarde que nossa organização é irrestritamente solidária aos familiares dos presos assassinados no Massacre no Pavilhão X.  Também cabe ser declarado que nos solidarizamos com os presos, familiares e amigos que passaram momentos de terrorismo racial durante a rebelião, com a ameaça constante da SSP-BA soltar seus cães raivosos fardados contra os detentos amotinados, que foram acusados e julgados pela mídia de rapina como sequestradores. Quem conhece a cultura política carcerária sabe que não houve sequestro de parentes. Os familiares permaneceram dentro da casa correcional como estratégia comunitária de autodefesa para frear uma investida da polícia militar, que não tinha o mínimo interesse em  negociar uma “rendição”, mas sim, executar o máximo possível de detentos e depois colocar na conta das “facções”.
O massacre no pavilhão X, com cabeças decapitadas, lençol no telhado com o CNPJ da firma e armamento de alto calibre, que, como é obvio, não entrou na grade pela genitália de uma mulher, evidencia bem mais do que os discursos morais religiosos e a Tese dos “Bons e maus meninos”, vomitados pelas redes sociais e mídia de rapina.  Diante de um padrão de governabilidade alicerçado na morte de negros\as, em que, apenas na gestão do Secretário de Segurança Pública Maurício Telles Barbosa, 25 mil  pessoas foram assassinadas, em média 15 homicídios por dia[5], sem contar as mais de 17 chacinas que vieram a público, como é o caso da Matança do Cabula.  Esses números, que como sabemos são sub-notificados, não dão conta da dimensão real do Genocídio de Negros na Bahia, mas nos traz indícios para entender que o massacre na penitenciária estadual de Feira de Santana é uma peça nessa engenharia estatal da morte Negra, em que o Estado é o responsável direto, como dissemos anteriormente, essas armas não entraram na carceragem pela genitália de uma mulher.
Feira de Santana continua sendo uma cidade colonial incendiada secularmente por rebeliões e massacres.  Cabe retomarmos que foi nesse território hostil aos negros\as que viveu e morreu Lucas Evangelista dos Santos, o Lucas da Feira, como ficou mundialmente conhecido. Um homem preto revoltado, desobediente, indigesto, brigão, mandão, violento, cruel, vida loka, contraditório. Não estamos falando de banditismo social, cangaço urbano ou de símbolo da luta por “Promoção da Igualdade Racial”. Lucas da Feira era gente ruim mesmo, periculoso, um menino mau.  Talvez por esses motivos, ou tão somente, no ano de 1828 pinotou da fazenda de seu antigo Senhor. Na fuga e pistoleiragem trombou com outros pretos/as revoltados e juntos lideraram por cerca de vinte anos uma rebelião racial permanente que levou o terror à aristocracia falida sertaneja. Até mesmo o Governador da Província da Bahia na época cabrerou e estipulou um prêmio de quatro mil reis pela captura e morte do Bando.
 Lucas da Feira foi capturado, aprisionado, executado e esquartejado em praça pública em 25 de setembro de 1849. Um criminoso que cometeu o delito de conquistar sua liberdade no cano de uma espingarda, no corte do facão, na marra, com violência e sem concessões. A rebelião e massacre no pavilhão X não pode ser deslocada dessa história de luta radical negra.

31 de maio de 2015

Professor Fred Aganju, articulador da Campanha Reaja ou Será Morta/o


TODO DETENTO/A NEGRO/A É UM PRESO POLÍTICO. COMO TAL, TEM DIREITO A LIVRE ORGANIZAÇÃO, SEM RESSALVAS.


[1] Ver na íntegra em: bit.ly/1I2UXnZ   
[2] Os detentos assassinados foram Silas da Silva, decapitado, residia no bairro Rocinha; Haroldo de Jesus Brito, da Rua Nova; Alisson Rodrigues Oliveira, do Conjunto Feira VII; Juliel Pereira dos Santos, do George Américo; Israel de Jesus Santos; Luiz Paulo de Souza Alencar; além do detento identificado apenas como Júnior.
[3] Os detentos feridos foram Dioclécio Aureliano dos Santos, Davi Pires Almeida Fernandes, Anderson Clayton Silva Nascimento, Iago de Jesus dos Santos e Luiz dos Santos Almeida.
[4] Isolamento total do detento, com apenas duas horas de banho de sol por semana, privação de sono, tortura física e psicológica, além da proibição de qualquer tipo de visita. O mesmo tratamento dado a “terroristas” por parte dos EUA na base naval de Guantánamo.
[5] Esses dados foram divulgados recentemente pela mídia e notificados a partir do cruzamento de dados usando informações do DataSUS, Mapa da Violência, Anuário da Segurança Pública, e os próprios boletins da Secretaria de Segurança Pública. Ver em: bit.ly/1BchCJs

0 comentários

Comunicado sobre a retomada das atividades 
do Coletivo Quilombo na Bahia.

Entre barricadas, atos de rua, ocupações e trabalho militante cotidiano o Coletivo Quilombo se desenvolveu como uma referência de ação direta popular e luta libertária. Fundado em 2007, ainda como um pequeno grupo de estudantes de História da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), o Coletivo Quilombo teve importante presença nas lutas populares locais. Foram lutas da juventude e dos estudantes pobres, das mulheres trabalhadoras, nas periferias, pelos direitos LGBT e contra a homofobia, por transporte público, pelo direito à cidade, nas lutas do povo preto e contra o racismo, em ocupações urbanas e rurais, em trabalhos de educação popular, nas lutas dos povos originais e em diversas atividades de solidariedade com os de baixo até 2012, quando perdemos a regularidade das nossas atividades e nossa organicidade. Desde o ano passado reabrirmos as discussões em torno do nosso projeto, a partir de um necessário balanço e de uma profunda autocrítica e agora com ânimo renovado anunciamos publicamente que estamos retomando o Coletivo Quilombo.

Retomando um processo interrompido. Retomando a construção de um programa desde as lutas concretas e imediatas até o projeto de ruptura revolucionária de longo prazo. Reconstruir os mocambos, fortificar nossas defesas. Nosso projeto segue anticapitalista e libertário, acreditando na necessidade do protagonismo popular, nas formas horizontais de organização e no empoderamento real de nosso povo através dos espaços de auto-organização nas favelas e comunidades, nas ocupações, nas escolas e universidades, no campo, nas fábricas e locais de trabalho.      

Um trabalho duro nos espera para reconstruir nossas frentes sociais e retomar a regularidade em nossas atividades, que vamos seguindo com humildade e persistência nos caminhos, lutas e sonhos de libertação e emancipação popular, tendo sempre como horizonte criar um povo forte. Também retomamos o funcionamento e as atividades em nossa sede, a Casa da Resistência, que é um centro social ocupado desde 2009 e funciona como um espaço solidário no centro da cidade de Feira de Santana. Além disso, apontamos a necessidade da abertura de um processo de debate e construção de unidade entre os setores militantes combativos e autônomos para a formação de um novo campo político-social libertário na Bahia que possa se colocar enquanto alternativa para os novos tempos de luta, assim como, fomentar um processo mais amplo sobre a necessidade de uma frente anticapitalista, da esquerda antigovernista e dos movimentos sociais combativos que possa dar respostas à ofensiva da direita e da extrema-direita no país, aos ataques dos governos aos direitos sociais e a violência estatal e paraestatal contra o povo pobre, preto e periférico e as comunidades tradicionais.   

É isso, estamos de volta e continuamos gritando: LUTAR! CRIAR! PODER POPULAR!   

Protagonismo popular, pelo fim de um povo figurante!

Coletivo Quilombo – Construindo Resistência Popular


Maio de 2015
coletivoquilombofsa@gmail.com


0 comentários

“Em 10 anos a Campanha Reaja escreveu a teoria geral do fracasso
Por que se sucesso é fazer Promoção da Igualdade
Se sucesso é sentar com o inimigo diante do sangue do nosso Povo
Se sucesso é ficar fazendo essa política que se tem feito
 em nome de negros e negras nesse país
Nós preferimos o fracasso de enfrentar o terror nas ruas”

Dr. Hamilton Borges Walê, 
em pronunciamento no ato de 10 anos 
da Campanha Reaja ou será Mortx.

Na última terça-feira (12.05.2015) em Periperi, subúrbio ferroviário de Salvador-BA, um grupamento da RONDESP entrou atirando a esmo na comunidade da Cidade de Plástico, atingindo o crânio de uma jovem com um tiro de fuzil. Dayllane, 21 anos, estava na frente de sua casa cuidando do sobrinho, filho de sua irmã gêmea e foi alvejada quando tentava tirar o menino da linha de tiro dos policiais. Esse caso de execução sumária seria mais um número nas estatísticas macabras da SSP-BA[1], entretanto, o terrorismo racial policial não contava que a Ocupação Zeferina[2] está no perímetro de ação de militantes do Núcleo de Mães e Familiares do Estado Racista Brasileiro. Poucas horas depois a mídia de rapina televisionou por terra e por ar a Avenida Suburbana arder em chamas e fumaça preta.
Na mesma época, há 10 anos, assim como hoje em Periperi, um grupo de mulheres e homens negros tomaram a decisão política de não aceitar o próximo corpo negro tombado no chão, ocupando por cerca de 12 horas a sede da SSP-BA, revelando para toda sociedade brasileira o projeto civilizacional em curso que mata negros/as todos os dias: o Genocídio. Eis então que em maio de 2005 emerge do submundo de vilas, favelas e presídios, uma perspectiva de luta radical negra que não faz concessões quando o que está em xeque é a vida de nosso Povo. É a Campanha Reaja ou Será Morta/o, uma tradição radical de luta negra comunitária, o flagelo da promoção da igualdade racial, o inimigo número um do supremacismo branco de esquerda e direita.
Minha ambição com esse escrito é elaborar um balanço estratégico de 10 anos da Campanha Reaja, a luz da Teoria Geral do Fracasso (BORGES WALÊ). A tarefa é trilhar os percursos táticos para a consolidação de nossa tradição radical negra que, há uma década, trata-se da centralidade na luta Contra o Genocídio do Povo Negro como peça chave para consolidação, em médio prazo, de um padrão organizacional semelhante ou correlato a um Exército de Libertação Nacional, sendo assim, esse escrito é especificamente uma análise organizacional, muita inspirada, admito, no pensamento teórico-militar pan-africanista de mulheres negras como Assata Shakur, Afeni Shakur, Dra. Andreia Beatriz e a General Winnie Mandela.
A primeira questão é conjuntural e interna, do ponto de vista da política racial comunitária. É importante ser dito que desde a fundação da Campanha Reaja afirmamos que a nossa luta está para além da conjuntura. Com isso dizíamos que a constante brutalidade policial em territórios sócio-racialmente apartados; o encarceramento em massa de negros/as por uma política criminal racialmente seletiva; o terror racial protagonizado por grupos de extermínio em favelas e os altos índices de assassinatos de jovens negros por ação ou omissão do Estado fazem parte das engrenagens de um projeto civilizacional supremacista branco, que reservava apenas submissão ou morte para negros\as: Genocídio.
Uma década depois, nossa avaliação estratégica confirmou-se, revelando inclusive como a sofisticada teia de cooptação racial que envolve um setor hegemônico do movimento negro tem sido uma importante peça na montagem de dispositivos de subjugação racial que justificam ideologicamente o Genocídio Negro em curso. Como admitiu vergonhosamente um representante da Secretaria Nacional de Promoção da Igualdade Racial, na Comissão Interamericana de direitos humanos da OEA. Mesmo diante de pomposas dotações orçamentarias gastas nos últimos anos em programas públicos e privados de promoção da igualdade racial, os altos índices de letalidade de jovens negros continuam a aumentar calamitosamente, atingindo cifras que nem mesmo se comparam a países oficialmente em guerra civil.
Sendo assim, de maneira geral, nos últimos doze anos as Secretarias de Promoção da Igualdade, o Programa Juventude Viva, a Fundação Cultural Palmares, dentre outras facetas do projeto falido de incorporação racial, tem se caracterizado como estruturas formais de rendição e subjugação racial, em que uma elite negra intelectualmente domesticada em centro de pesquisas e racialmente submetida aos desmandos de uma esquerda branca historicamente racista, tem negociado e colaborado ideologicamente com o Genocídio do Povo Negro no Brasil.

Também podemos citar os dados politicamente sub-notificados do Mapa da Violência (2012; 2013; 2014) como outra faceta das tecnologias de subjugação racial. Um novo lobby financeiro xerifado racialmente por Julio Jacobo Waiselfiesz e recentemente carniçado pelos bons menino\as do Programa Juventude Viva. Para além da falência estrutural desses programas e relatórios do Governo, é um escândalo internacional que organizações de familiares de vítimas do Estado, que há mais de 30 anos denunciam e se organizam contra a matança generalizada, não tenham acesso, muito menos o protagonismo e controle do processo de construção e elaboração dos Mapas da Violência.

Em 10 anos de atuação ostensiva de luta organizada Contra o Genocídio do Povo Negro, a Campanha reaja se confirma como uma poderosa articulação comunitária que tem a peculiaridade de ser estruturada fundamentalmente a partir de dois territórios comunitários: a Associação de Familiares de Amigos\as de Presos\as da Bahia (ASFAP) e os Núcleos de Mães, Familiares e Vítimas do Estado Racista BrasileiroDesta forma, com postos avançados em Salvador, região metropolitana e interior da Bahia, estas duas instâncias são os veículos comunitários primários de agitação, comunicação e mobilização da Campanha Reaja nas ruas, favelas, vilas, e penitenciárias. São dessas estruturas comunitárias que estabelecemos nosso Conselho Subterrâneo Estratégico, estrutura máxima de nossa organização, responsável inclusive pela formulação e direção de duas Marchas (Inter)Nacionais Contra o Genocídio do Povo Negro (2014 e 2015).

De fato as famílias são as unidades básicas de direção política de nossa organização. Para muitos essa característica é um equívoco, um erro estratégico, ou mesmo personalismo político. Não nos importa, “gosta de nós? Tanto faz, tanto fez” (RACIONAIS MCS).  Para nós, o fato da articulação comunitária partir da unidade familiar confirma nossa identidade ideológica filiada ao Pan-africanismo Comunitário, Garveísta na organização e Panterista na ação. Estamos fora do alcance dos radares organizativos do supremacismo branco de quaisquer colorações ideológicas, ou mesmo dos nossos primos, que se sentem importantes, sabidos e intocáveis por lerem algumas linhas em ingrês de Maulana Karenga. Nós não somos um Movimento de quadros, muito menos de uma intelectualidade negra iluminada, que com muita empáfia sentem-se no direito divino manifesto de decidir o melhor para os pretos\as. Entendam e nos deixem em paz de uma vez por todas: a Reaja é uma instituição familiar negra com toda delícia e dor do significado.
Decidimos enfrentar o terror racial nas ruas transformando becos e vielas no centro de gravidade da nossa organização. É na rua que arregimentamos militantes. Na rua que consolidamos nosso programa de formação comunitária. É na rua que combatemos o racismo e neocolonialismo. Foi a partir dessa metodologia de combate racial nas ruas que acumulamos condições para construção das duas Marchas, muitos não sabem, mas sua concepção surgiu de um debate em uma cela fria na penitenciária Lemos de Brito, em Salvador-BA.  A Marcha é uma poderosa espada de insurgência racial, veio da necessidade de defendermos nosso postulado político onde realmente importa: na rua e com o grosso de nosso Povo. Uma ação coordenada, orientada por princípios inegociáveis e lideradas por mulheres negras. As duas Marchas Internacionais que realizamos e as próximas que virão são as colunas de fundação de um novo momento na política racial na América do Sul.
Uma década enfrentando o terror racial nas ruas nos trouxe sangrentas lições: telefones grampeados; campanhas públicas de difamação-criminalização; sabotagem; militantes presos, tendo suas casas invadidas por guarnições policiais, ou mesmo, assassinadas por esquadrões da morte. Nós sabemos que o regime de tensão, violência e risco de morte são aspectos cotidianamente presentes em nossa luta racial comunitária e que, contraditoriamente, foram fatores importantes para o engate de programas comunitários de autodefesa, a maioria de ordem subterrânea e, portanto, inenarráveis, e outros, públicos e notórios em nossa postura, conduta e cultura política de enfrentamento racial nas ruas.
A Campanha Reaja reacendeu o medo psicológico do Haitianismo na elite racial dominante. No século XIX, após a vitoriosa revolução haitiana, dirigida pelos chamados Jacobinos Negros, como já adjetivou o militante negro C.L.R. James, as elites brancas do então mundo ocidental escravagista sofreram um forte golpe político, econômico e psicológico na manutenção do seu status quo Racial. Em qualquer sociedade ocidental fundada no escravismo racial, as elites brancas e seus assessores negros\as capitulados racialmente, compartilham dessa fobia coletiva: o medo do Haitianismo. Ou seja, o temor do povo negro construir condições organizacionais para conspirar, planejar e se rebelar radicalmente contra o supremacismo branco de quaisquer colorações ideológicas. É uma patologia coletiva que faz parte do arsenal de dispositivos que dão combustível ao Genocídio do Povo Negro.

Ao contrário do que sorrateiramente sussurram nossos\as opositores/a, nós não somos, nem tentamos parecer, santos, loucos, ou muito menos profetas. Nós somos a fúria negra que ressuscita outra vez. Como declaramos nas escadarias da SSP-BA no ato público de 10 anos da Campanha Reaja: nós somos um movimento negro comunitário de massas, articulado transnacionalmente a partir de nossa filiação a IV Internacional Garveísta. Nós somos a antessala da guerra racial generalizada que derramará o sangue de nossos inimigos, viemos para destruir e construir as condições para consolidação do exército de libertação nacional que emergirá do submundo, ateando fogo nas estruturas do mundo Ocidental.  FOGO!

Por combatente Fred Aganju, educador comunitário e articulador da Campanha Reaja ou Será Morto, Reaja ou Será Morta!  

CONTRA O GENOCÍDIO DO POVO NEGRO, NENHUM PASSO ATRÁS!



[1] Secretaria de Segurança Pública da Bahia

[2] A Cidade de Plástico, como é mais conhecida a Comunidade Zeferina, é uma histórica ocupação urbana do Movimento Sem Teto da Bahia, Movimento que há anos protagoniza uma luta por reforma urbana em todo o Estado da Bahia.


0 comentários