Nos últimos dias o arsenal sensacionalista da imprensa reforçou o espetáculo em que forças militares, a serviço do Estado burguês, invadiram a periferia do Rio de Janeiro, mais especificamente a Vila Cruzeiro e o Complexo do Alemão, com a justificativa e pura balela pacificadora. Apontado no festival apoteótico das mídias burguesas como uma guerra do Estado contra facções do tráfico de drogas nos morros e celebrado como um momento emancipador das camadas populares que ali estão sob o jugo do tráfico e dos traficantes, o conjunto de operações militares e seus desdobramentos precisam ser lidos nos quadros de uma disputa de hegemonia em que está em questão a quem caberá o controle do tráfico de drogas, embora se afirme a todo o tempo que é sua erradicação que está em jogo.
Nada de novo no cenário do capital. A carnificina nos morros cariocas segue no bojo de uma política repressiva, racista e etnocida que remonta as operações de limpeza social nos moldes Rio 92, Rio I e II em 1994 e 95, e que tem como antecedente imediato o deslocamento de tropas brasileiras para uma atuação piloto na qual, ao mesmo tempo em que agia como subagência do império americano na investida imperialista contra o Haiti, providenciava o laboratório repressivo de massacre aos negros e negras a ser executado no Brasil.
O circuito de criminalização das populações subalternas nos morros cariocas, embalado na falácia da repressão ao tráfico e da erradicação da criminalidade pretende silenciar o fato de que a criminalidade, as violências urbanas e seus derivativos são manifestações produzidas no interior de uma lógica burguesa que no Brasil assume a agressividade do brutalismo neoliberal.
Este brutalismo, que no Rio de Janeiro tem como feição mais evidente as ações de limpeza social corporificadas na atuação do esquema Bope-Caveirão e as formas de controle e pacificação pela mordaça de que são exemplos claros as Unidades de Polícia Pacificadora assumem agora um lugar privilegiado que conta com amplo respaldo das elites dirigentes, dos saudosistas de 1964, das mídias hegemônicas e até da recuada posição de uma suposta esquerda parlamentar e conciliadora de classes que vê na ação policial uma legitimidade inquestionável.
O espectro sombrio que ronda os morros cariocas reflete um panorama nacional de aumento significativo dos efetivos policiais, desenhando uma marcha de militarização da sociedade e dos conflitos sociais que aponta para um horizonte de fascismo institucional em que as populações marginalizadas,os trabalhadores e trabalhadoras,os movimentos sociais combativos e as juventudes de periferia,são os alvos mais diretos de um projeto burguês que se fundamenta no trinômio controle-criminalização-opressão e assume configurações as mais variadas.
Exemplos desta escalada fascista e militaresca são, no caso baiano, o extermínio étnico de jovens negros e negras das periferias, matanças midiaticamente justificadas como resultantes do “tráfico” de drogas, como no recente caso do menor Gabriel Alves de doze anos de idade assassinado pela PM no município de Camaçari, assim como na onda de extermínio associada à especulação imobiliária no Bairro da Paz em Salvador; a intensificação da presença policial nos bairros (Programa Ronda nos Bairros) e nas escolas públicas (Programa Ronda Escolar e Polícia Cidadã - suprema ironia), que em Feira de Santana assume aspecto ainda mais gritante com a aprovação do famigerado ‘’Toque de Acolher’’, eufemismo cínico para uma retomada ditatorial do Toque de Recolher, institucionalizando o estado de sítio contra uma juventude já cerceada em seus direitos mais fundamentais; sem falar na onda racista de repressão policial ao MST e ao povo de santo no Sul do estado.
Em tempos de euforia nacional em torno de eventos internacionais como as farsas desportivas das Olimpíadas e Copa do Mundo de Futebol que o Brasil sediará nos próximos anos, o Estado Brasileiro e seus tentáculos militarizados encampam a função higienizadora de faxinar social e etnicamente as cidades sedes adotando medidas de cunho repressivo que vão do cercamento das favelas à ocupação militar dos morros,passando por um disciplinamento das ruas, dos estádios, escolas e quaisquer outras aglomerações, moldando o país aos contornos de uma escalada repressiva que só tende a crescer em sintonia com os interesses do grande capital.
O Coletivo Quilombo apresenta toda solidariedade classista, socialista e libertária às famílias atingidas pela barbárie repressiva e policialesca do Estado, sobretudo o povo preto e pobre historicamente marginalizado!!! Ao mesmo tempo, levantamos o clamor pelo debate entre os setores de esquerda combativa e movimentos populares autônomos no sentido de que demarquem posições e somem esforços na recusa destas ações e construção de alternativas populares a elas no interior da luta de classes.
Acreditamos que a mobilização popular e a ação direta do povo organizado na luta irão construir formas autônomas de autogestão para superação da ordem burguesa, do Estado, e da violência policial que os sustenta.
Aquilombai-vos! Quando os de baixo se movem, os de cima caem!
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